Um dos espaços mais importantes no cenário internacional dos laboratórios de cultura e inovação é o Medialab Prado de Madri, na Espanha. Vamos entender um pouco mais sobre sua história e o que se desenvolve por lá.

Já vimos anteriormente que o MIT Media Lab estabeleceu interessantes dinâmicas para o desenvolvimento de inovação, mas que existe controvérsia a respeito do contexto sociopolítico dele, e das implicações que daí derivam. Foi de fato o campo da cultura que veio desafiar a própria ideia do laboratório de mídia e expandi-la para perspectivas mais plurais e experimentais, que estão no centro do que nos interessa aqui neste curso.

Desde meados dos anos noventa, organizações artísticas, culturais e ativistas de diversas partes do mundo tomaram emprestada a ideia do laboratório para inserir um caráter mais experimental a instituições que então eram vistas de fora como meros espaços de disseminação cultural. Existia, naturalmente, uma esperteza nisso. As pessoas envolvidas concretamente com as ações tinham plena consciência de que a experimentação não era uma novidade no dia a dia de seu trabalho. Mas enxergavam nesse posicionamento a possibilidade de legitimar práticas por vezes complexas demais para a compreensão da sociedade como um todo (e especialmente, para a compreensão dos agentes responsáveis pela liberação de recursos). Assim, por volta da virada do milênio o vocabulário do laboratório de mídias passou a se fazer presente em diversos espaços como o Eyebeam em Nova Iorque, o Hangar em Barcelona, Waag em Amsterdam, o Laboral em Gijon, o Tesla em Berlim, etc.

Havia também algum parentesco com os hacklabs que surgiam na cena de ocupações urbanas em diversos países. E naturalmente estava presente um diálogo com outras perspectivas sobre o significado de laboratório, por exemplo nas artes cênicas. De um modo geral, havia alguns elementos em comum nos laboratórios aplicados ao contexto da cultura: proporcionavam colaborações entre diversas disciplinas, aliavam técnicas contemporâneas de criação a investigação artística e/ou questões sociopolíticas, e ofereciam algum tipo de infraestrutura - física ou institucional - para grupos que até aquele ponto não estavam representadas no tecido urbano. Era possível pensar em laboratórios como interfaces entre as redes digitais e as redes das ruas:

"esses núcleos não precisam se definir somente como 'laboratórios de mídia'. Não devem limitar-se à produção de 'conteúdo'. Tratam, na verdade, de criatividade aplicada, busca de soluções em múltiplas áreas de conhecimento. Um laboratório experimental pode, claro, produzir vídeos, programas de rádio, cobertura online de eventos, material gráfico, websites. Mas também desenvolve pesquisa em captação e armazenamento de energia alternativa, monitoramento ambiental com sensores, redes de aprendizado distribuído, instalações imersivas, projetos de robótica educacional. Pode trabalhar com mediação de conflitos, democracia experimental, política cultural, financiamento solidário de pequenos projetos. Elabora e implementa planos críticos para cidades digitais. Não existem limites para laboratórios que se proponham a atuar como interfaces entre o mundo cotidiano e a multiplicidade das redes."

Felipe Fonseca, Laboratórios experimentais: interface rede-rua

Em seguida, falaremos sobre um dos espaços mais importantes neste contexto, o Medialab Prado, da Espanha. Entretanto, se quiser antes saber um pouco mais sobre o histórico dos Laboratórios de Mídia e seus desdobramentos, pode dar uma olhada neste post de blog.

O Medialab Prado

O Medialab Prado se apresenta hoje em dia como um laboratório cidadão, ligado à Secretaria de Cultura e Esportes da Prefeitura de Madri, na Espanha. Nos primeiros anos de atuação, ele localizava-se no subsolo da Plaza de las Letras, a poucos minutos a pé de instituições de peso como o Museo del Prado e o Museo Reina Sofia. Como resultado de sua intensa atuação - reunindo artistas, cientistas, designers, hackers e ativistas - o Medialab Prado ganhou cada vez mais visibilidade e passou a ocupar a Serrería Belga, uma antiga fábrica de móveis com três andares e uma renovada arquitetura.

Ao longo de seus quase quinze anos de atividade, o Medialab Prado se notabilizou tanto pelos eventos internacionais na vanguarda da investigação sobre formas contemporâneas de cultura quanto pela investigação continuada sobre diversos temas. Organizando eventos e redes como o labtolab, ele contribuiu de maneira decisiva para a consolidação de uma atuação mais ampla para os laboratórios de mídia - não somente oficina para artistas desalojados, tampouco mera infraestrutura para empreendedores digitais, mas o próprio lugar da troca entre diversos campos. Temas como ciência de bairro, hackear a cidade, tecnologia e magia, bem comum, culturas de convivencialidade e muitos outros encontram no Medialab Prado um centro de desenvolvimento e irradiação.

Interactivos?

Uma das principais inovações desenvolvidas pelo Medialab Prado foram os eventos chamados "Interactivos?". Após algumas edições sediadas no Medialab, os Interactivos passaram a ser realizados em outras partes do mundo. No Brasil já aconteceram quatro edições. Eles baseiam-se em uma metodologia clara para produção rápida de projetos experimentais:

  • Define-se um tema para o evento, em diálogo com a instituição que o sedia e o contexto cultural
  • Abre-se uma chamada por projetos, e seleciona-se um número predefinido deles - usualmente entre seis e dez
  • Abre-se uma segunda convocatória, para selecionar colaboradores - pessoas interessadas em contribuir para a execução do projeto
  • Proponentes e colaboradores reúnem-se durante um período imersivo - entre cinco e dez dias para trabalhar nos projetos
  • Ao fim, cada projeto realiza alguma coisa - um protótipo, uma exposição, documentação ou o que fizer sentido

Como veremos em outra seção, o modelo do Interactivos vem cada vez mais influenciando a maneira como se desenvolvem inovações de forma rápida e colaborativa.

Veja aqui algumas edições do Interactivos organizadas no Brasil pela Silo:

https://silo.org.br/interactivos/


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01.02. Labs nas artes e na cultura - o Medialab Prado